Conto · 2025

O Valor de Ser Chamado Pelo Nome

Thaís Alves Ferreira

1º lugar · Concurso Literário Talentos da Cooperativa — Sicoob Credisete

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Minha avó Renilde sempre foi uma mulher muito íntegra, cujas mãos sempre foram duras de calos, mas que nunca deixou faltar pão na mesa. Quando eu era criança, ela me carregava no colo como se eu não pesasse nada. Hoje com quase 30 anos, eu percebo que ela me carrega de outro jeito.

Cresci ouvindo a vó falar da Cooperativa Sicoob da nossa cidade, que ela estava lá no começo, de tudo que ela fez e deu para essa Cooperativa dar certo.

Eu nunca entendi muito bem, pois para mim, banco era aplicativo, notificação de Pix, saldo, cartão virtual, aproximação. A ideia de “abrir uma Cooperativa Sicoob” soava tão distante quanto andar quilômetros para estudar.

As coisas mudaram no ano passado, quando ela adoeceu e precisou ficar em casa, sendo cuidada pela família, sem sair. Foi assim, que a visitando, ouvi várias histórias que nunca tinha ouvido. Mostrou um recibo ainda amarelado, com o símbolo de pinheiros dentro de um círculo, que representava seu primeiro depósito na conta da Cooperativa.

Junto deste recibo, havia também uma foto com um grupo de pessoas que ela apontava rosto a rosto, dizendo nomes e como eles contribuíram para a Cooperativa nascer e crescer. A vovó se sentia importante, ali no meio daquela foto, de frente a fachada daquela Cooperativa que hoje é um enorme prédio no centro da cidade, muito bem arquitetado e posicionado de uma forma que de todos os cantos é visto.

— Aqui, minha neta, foi a nossa primeira sede — ela disse, apontando o próprio rosto jovem na imagem.
— E por quê, vó, vocês criaram essa Cooperativa?

Ela me sorriu com os olhinhos cansados e respondeu:

— Porque a gente queria não depender de favores, e queríamos ser parte de algo que mudaria a vida de cada um ali. Queria ver nossos filhos estudando. Queria que, quando alguém precisasse, a ajuda viesse de mãos conhecidas, não de juros frios e cegos da nossa realidade. A gente queria ser dono do nosso destino. Juntos, entende?

Os dias foram se passando, e eu cuidando da vó, ela me ensinou muitas lições sobre a Cooperativa, indo de educação a formação dos membros. Mostrou como desde o início eles se esforçaram para que todos os membros tivessem a devida educação e gestão financeira, e os benefícios de cooperar. Essa educação contínua não só fortaleceu a Cooperativa Sicoob, mas também empoderou cada membro a tomar decisões informadas e a contribuir para o crescimento coletivo.

No dia em que ela se sentiu bem o suficiente pra sair, pediu pra ir até a agência. Eu fui com ela. Quando chegamos, abriram a porta antes mesmo que tocássemos a campainha.
— Senhora Renilde! Que bom te ver! Sentimos sua falta aqui!

Uma moça me olhou com um sorriso gentil: — Você é a neta da senhora Renilde, né? Ele fala tanto de você.

Chamaram minha avó pelo nome. Isso pareceu irreal por um momento. E eu comentei baixinho:
– “Tá importante né vovó?”

Ela sorriu e sussurrou:
– Aqui somos chamados por nome, não por números, minha menina.

Naquele instante, eu não era uma estranha. Eu era um pedaço daquela história. Entendi: não era sobre uma conta, sobre um número. Era sobre olhar nos olhos. Sobre ser chamado pelo nome. Sobre pertencer.

Na volta pra casa, ainda com a mão da vó entrelaçada na minha, eu disse baixinho: — Agora eu entendo, vó. Vocês não abriram uma Cooperativa Sicoob. Vocês abriram um caminho pra mim.

Ela não respondeu. Só apertou minha mão. Forte. Como quem diz: “eu sabia que você ia entender”.

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